
Justiça manda prender jornalista perseguido por Carla Zambelli em outubro de 2022
O jornalista negro Luan Araújo, condenado por difamação após publicar um texto sobre o episódio em que foi perseguido pela então deputada federal Carla Zambelli (PL) em 2022, informou à Justiça que quitou integralmente os valores devidos na condenação e pediu o cancelamento da ordem de prisão expedida contra ele.
A informação consta em uma petição protocolada na quinta-feira (11) pela defesa de Araújo. Segundo o documento, foram pagos R$ 595,30 referentes à pena de multa e R$ 1.621 relativos à prestação pecuniária, totalizando R$ 2.216,30 em obrigações quitadas.
De acordo com a defesa, os recursos não vieram de renda própria do jornalista, mas de uma campanha de arrecadação online organizada por amigos, familiares e apoiadores. Nesta sexta-feira (12), o link da “vaquinha”, publicado nas redes sociais de Araújo, contava com mais de R$ 42 mil.
“A realização desta campanha, por si só, é a prova cabal da sua incapacidade financeira e, ao mesmo tempo, de seu inequívoco empenho em cumprir a determinação judicial”, afirma a petição.
O pedido foi apresentado uma semana após o g1 revelar que a Justiça de São Paulo havia determinado a prisão de Araújo após o não pagamento da prestação pecuniária fixada (pagamento de dinheiro) como parte da condenação. Na ocasião, a defesa alegou que ele não tinha condições financeiras de arcar com o valor e informou que recorreria da decisão.
O jornalista Luan Araújo foi perseguido em outubro de 2022 por Carla Zambelli
Reprodução/TV Globo
Zambelli foi condenada a 5 anos de prisão pelo STF por esse caso. Ela fugiu para a Itália, onde aguarda novo julgamento de extradição em 1º de julho (leia mais abaixo).
A repercussão do caso levou o vereador de Cotia e ex-deputado federal Alexandre Frota (PDT) a se oferecer publicamente para pagar a dívida do jornalista. Ex-bolsonarista e hoje um político de centro-esquerda, segundo ele mesmo, Frota comentou em uma publicação na rede social de Luan: “Vamos pagar a multa. Se quiser, pede ao advogado para me ligar”.
Na nova petição, a defesa sustenta que a conversão da pena restritiva de direitos em prisão pressupõe um descumprimento injustificado da sanção, o que não teria ocorrido no caso de Araújo. Segundo os advogados, o atraso decorreu exclusivamente da falta de recursos financeiros.
Eles argumentam ainda que, como o pagamento já foi efetuado, ainda que posteriormente ao prazo inicialmente fixado, o objetivo da sanção foi alcançado e a manutenção da ordem de prisão seria uma medida “desproporcional e excessivamente gravosa”.
Relembre o caso
Luan Araújo foi condenado após publicar um texto relatando o episódio ocorrido em outubro de 2022, quando Carla Zambelli o perseguiu pelas ruas do bairro dos Jardins, na Zona Oeste de São Paulo, com uma arma em punho, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais.
Na publicação, o jornalista afirmou que a então deputada “segue uma seita de doentes de extrema-direita” e “segue cometendo atrocidades atrás de atrocidades”. As declarações fundamentaram a condenação por crime contra a honra.
Após a determinação de prisão, a defesa argumentou que o jornalista não havia deixado de cumprir a pena por vontade própria, mas por impossibilidade financeira. Os advogados chegaram a pedir o parcelamento da dívida e afirmaram que a pobreza não poderia ser tratada como motivo para encarceramento.
O episódio envolvendo Zambelli também resultou em condenação da ex-deputada no Supremo Tribunal Federal (STF). Em outubro de 2025, ela foi condenada a cinco anos e três meses de prisão pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal relacionados à perseguição armada contra Araújo.
Ela, porém, já havia deixado o Brasil pela fronteira com a Argentina, na região de Foz do Iguaçu (PR), em direção à Itália. A fuga ocorreu em maio de 2025 após Zambelli ter sido condenada pelo STF a 10 anos de prisão por contratar um hacker para invadir sistemas do Judiciário e inserir documentos falsos.
A ex-deputada foi presa, na Itália, dois meses depois, em julho de 2025, mas no final de maio deste ano, a Justiça da Itália anulou a extradição da ex-deputada Carla Zambelli ao Brasil no contexto da condenção da invesão dos sistemas do Judiciário. Ela segue solta, na Itália.
Segundo informações obtidas pela TV Globo, o Ministério da Justiça entrou em contato com a autoridade central da Itália para questionar se há um novo pedido de prisão contra Carla Zambelli relacionado ao segundo processo de extradição, referente ao caso de porte ilegal de arma de fogo.
O julgamento desse novo pedido de extradição está marcado para 1º de julho.