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Cientistas descobrem peixes com característica inédita em espécie no Brasil

Cientistas descobrem peixes com característica inédita em espécie no Brasil
Cientistas descobrem peixes com característica inédita em espécie no Brasil
Peixes raros nascem ‘trocados’ no RN e intrigam cientistas
A ciência acaba de revelar ao mundo duas novas espécies de peixes anuais na bacia do rio Piranhas-Açu, no Rio Grande do Norte. Mas a descoberta já nasce em tom de urgência. Batizados de Hypsolebias guararug e Hypsolebias negobispoi, os animais sobrevivem em poças temporárias da Caatinga que estão sob forte pressão ambiental provocada pela exploração de petróleo onshore e pelo avanço de parques eólicos na região.
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O estudo, liderado pelo biólogo Yuri Gomes Abrantes , não apenas descreve a morfologia e a genética dos novos habitantes do semiárido, mas faz um alerta grave sobre o licenciamento ambiental no país.
As duas novas espécies pertencem a um grupo de peixes com um ciclo de vida fascinante, adaptado para resistir a longos períodos de seca.
“Devido ao ciclo de vida sazonal concentrado em alagados temporários, os peixes anuais dificilmente conseguem migrar e povoar novos habitats”, explica Abrantes. “Como resultado, os peixes apresentam distribuição geográfica restrita e se tornam bem mais suscetíveis aos impactos antrópicos”.
Comparação das espécies
Reprodução / estudo
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O mistério das cores e a sombra do petróleo
O que mais chamou a atenção dos pesquisadores durante as análises foi uma anomalia visual inédita no gênero Hypsolebias: machos ostentando padrões de cores de fêmeas, e vice-versa. Morfologicamente, as espécies já se distinguiam das demais da região pela coloração, por características ósseas e pela posição das nadadeiras, mas o polimorfismo simultâneo acendeu um alerta.
A princípio, a equipe cogitou que a inversão de cores pudesse ser apenas uma fase de crescimento do animal. No entanto, Abrantes esclarece: “Através das análises morfológicas, identificamos que o polimorfismo ocorria tanto em peixes pequenos mais jovens, como em peixes já adultos, sugerindo que essa característica não desaparece ao longo do tempo”.
Hypsolebias negobispoi macho, no rio Piranhas-Açu
Diego Bento
A hipótese mais forte para essa desregulação recai sobre a água em que vivem. Análises químicas confirmaram a contaminação dos habitats por altos níveis de Hidrocarbonetos Totais de Petróleo (TPH).
Em um dos locais documentados, um “cavalo de pau” (uma bomba de extração de óleo) opera a menos de 10 metros da poça de água.
Hypsolebias negobispoi fêmea, no rio Piranhas-Açu
Reprodução / estudo
Questionado se já é possível cravar cientificamente que o petróleo causa essa anomalia física e endócrina, o pesquisador é cauteloso, mas direto.
“Ainda não. Contudo, a identificação de hidrocarbonetos de petróleo nos habitats dos peixes, é uma evidencia de que o fenótipo polimórfico pode ter relação com a contaminação”.
“Nesse caso, iniciamos novas linhas de pesquisa para melhor compreender o que está acontecendo”, adianta.
Embora o impacto toxicológico exato nos embriões dessas novas espécies ainda esteja sendo testado, Abrantes lembra que pesquisas recentes no Sul do país mostraram que pesticidas causaram a perda de 55% dos embriões de peixes anuais dos Pampas logo após a eclosão.
A ‘falha’ no semiárido
Uma das áreas de localização no rio Piranhas-Açu
Reprodução / estudo
Além do óleo contido na água, o avanço das instalações eólicas vizinhas exige o desmatamento da vegetação nativa, o que compromete uma série de processos ecológicos e impacta diretamente os animais.
A consequência dessa degradação ambiental somada à poluição química afeta negativamente todo o ecossistema. Diante desse cenário destrutivo, a H. guararug já é considerada “Em Perigo” (EN) e a H. negobispoi é classificada como “Criticamente em Perigo” (CR).
Mas como ecossistemas tão frágeis, que abrigam biodiversidade endêmica e criticamente ameaçada, são engolidos por grandes obras de infraestrutura de energia sem restrições? A resposta, segundo a pesquisa, está em uma falha sistêmica no poder público.
“Isso ocorre por que os órgãos licenciadores raramente incluem peixes nos estudos técnicos ambientais, principalmente no Nordeste semiárido, onde ainda é comum pensar que a Caatinga é seca durante o ano todo”, relata o autor do estudo.
Ciência com identidade e conservação
Hypsolebias guararug macho, no rio Piranhas-Açu
Reprodução / estudo
Para lutar contra a invisibilidade desse ecossistema, os cientistas usaram o batismo das espécies como ferramenta de conscientização. A Hypsolebias guararug resgata o nome originário do rio Piranhas-Açu na língua Tupi-Guarani, que significa “rio dos pássaros”. Já a H. negobispoi é uma homenagem direta a Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, filósofo e mestre quilombola piauiense, falecido em 2023, que dedicou a vida a combater as desigualdades sociais e a defender os saberes ancestrais da floresta.
“Os nomes cumprem um papel que vai além da taxonomia. Eles podem conectar a ciência, cultura e território”, afirma Yuri Abrantes.
Segundo ele, “a escolha foi pensada visando despertar o interesse da atenção do público, trazer visibilidade para as espécies, e gerar identificação e pertencimento das comunidades com a biodiversidade”.
Hypsolebias guararug fêmea
Reprodução / estudo
Para evitar que as espécies desapareçam pouco tempo após entrarem para os registros científicos, ações emergenciais são vitais. A continuidade de novos levantamentos na bacia do rio Piranhas-Açu, bem como o aprofundamento das análises em laboratório, nortearão as futuras estratégias de conservação na área.
“A divulgação científica e a educação ambiental também são imprescindíveis para influenciar as políticas ambientais, principalmente as ações do órgão ambiental licenciador, que necessita tornar os estudos de licenciamento ambiental mais rigorosos”, defende o cientista.
Ele encerra fazendo um chamado de atenção geral: “É importante lembrar que perder biodiversidade, também é perder todos os serviços ecossistêmicos que as espécies oferecem gratuitamente”.
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