
Assista ao JRO1 deste sábado, 21
Category Added in a WPeMatico Campaign






“Acreditamos que grande parte do ouro apreendido aqui não tem origem em Roraima. Muitos vêm de outros estados e são trazidos para cá por causa da fronteira com a Venezuela e a Guiana, onde a comercialização desse minério é permitida. E por lá mesmo, o ouro é vendido”, afirmou o delegado.
Ainda de acordo com Luchini, criminosos usam essas rotas para transportar o material e fugir das operações mais rigorosas nas áreas de garimpo.
“O padrão que identificamos até agora é o uso das mesmas rodovias. E o transporte é feito por pessoas que, muitas vezes, simulam viagens em família para tentar burlar as fiscalizações”, revelou Luchini.
As investigações indicam o uso de rotas terrestres específicas, como a BR-401, que leva a Bonfim, na fronteira com a Guiana, e a BR-174, que liga Roraima à Venezuela.
Realidade na Amazônia
Outras apreensões ajudam a dimensionar o cenário do ouro ilegal na Amazônia. No fim de outubro, a PM apreendeu 72,6 kg de ouro no Amazonas, avaliados em cerca de R$ 45 milhões, em uma ação que prendeu seis pessoas, entre elas dois policiais militares e um policial civil.
Dias antes, em Altamira (PA), a PRF apreendeu 40 kg de ouro em barras, avaliados em R$ 20 milhões, que eram transportados em um carro de luxo pela BR-230, a Transamazônica. Essa apreensão ocorreu menos de dois dias após a apreensão recorde em Roraima.
ARTE QUE PODE SER REAPROVEITADA:
INFOGRÁFICO: apreensão de ouro ilegal tem alta no Brasil
Arte/g1
O procurador da República André Porreca, do 2º Ofício da Amazônia Ocidental, frisa ainda que o garimpo ilegal na Amazônia envolve uma rede criminosa que vai muito além da extração do minério.
No caso de Roraima, ainda existem garimpos ativos na região e há, historicamente, o envio de ouro a outras partes do país.
“O garimpo ilegal não é só a extração de minério. Existe toda uma logística de transporte, lavagem de dinheiro, financiamento por organizações criminosas, fornecimento de combustível e até exportação do ouro para outros países.”
Porreca também avalia que a continuidade do garimpo ilegal está relacionada à baixa punição dos envolvidos: “Infelizmente ainda existe um cenário de impunidade que favorece esse tipo de crime altamente lucrativo.”
Fim da presunção da boa-fé
Em abril de 2023, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu a aplicação da chamada “presunção da boa-fé” no comércio de ouro, ou seja, utilizando exclusivamente informações prestadas pelos vendedores — e deu 90 dias para o governo criar regras mais rígidas.
O governo editou uma medida provisória com efeito imediato, extinguindo a presunção de boa-fé e exigindo emissão de nota fiscal eletrônica.
Paralelamente, enviou ao Congresso um projeto de lei para estabelecer um marco regulatório permanente.
O projeto continua em análise nas comissões da Câmara dos Deputados.
Luchini afirma que as apreensões cresceram também após a intensificação das operações de fiscalização nas rotas que levam ouro para a Venezuela e a Guiana (países com maior facilidade para vender ouro ilegal). A medida foi tomada depois do avanço no combate ao garimpo ilegal em terras indígenas, coordenada pela Casa Governo, órgão do governo federal em Roraima.
“Num primeiro momento, o foco era retirar garimpeiros das terras indígenas, e isso tem sido feito com sucesso. Reduzimos significativamente os alertas de novas áreas de garimpo. Depois, intensificamos a fiscalização nas rotas terrestres”, explicou o delegado.
Cinco apreensões seguidas em Roraima
Além da emblemática apreensão de 103 kg de ouro em agosto em Roraima, o estado registrou outras quatro apreensões em quase quatro meses. Em três delas, a PF identificou o mesmo padrão: barras escondidas em compartimentos dos veículos.
Ouro apreendido em Roraima
Caíque Rodrigues/g1 RR
O que é feito com o ouro apreendido?
Todo o ouro apreendido vai para o Instituto Nacional de Criminalística da PF, em Brasília, onde passa por perícia no projeto Ouro Alvo — iniciativa que identifica o “DNA do ouro”, ou seja, rastreia a origem exata de onde foi extraído.
“Com essa análise, conseguimos descobrir se o ouro veio de áreas de garimpo ilegal, inclusive dentro de terras indígenas. É um trabalho técnico, demorado, mas essencial para combater a origem do crime”, destacou Luchini.
Monumento ao garimpeiro e rua do ouro: Roraima tem história de apoio a atividade ilegal, ‘projeto de estado’, dizem pesquisadores









