
A corrupção brasileira tem um talento raro: ela muda de discurso como quem troca de roupa, mas nunca muda de hábito. Veste vermelho, azul, verde, amarelo, fala em povo, mercado, justiça social ou liberdade econômica. No fim, continua sendo a mesma velha compulsão por transformar o que é público em patrimônio privado.
Corrupção não é uma ideologia. É uma deformação de caráter.
Existe uma ingenuidade quase infantil em acreditar que a desonestidade escolhe lado. Ser de esquerda ou de direita é uma visão de mundo. Ser corrupto é uma escolha moral.
Há gente íntegra e gente desonesta em todos os campos políticos. A diferença é que os honestos defendem ideias; os corruptos defendem interesses. E interesses costumam ser muito mais flexíveis do que convicções.
Daniel Vorcaro entrou nessa história como um lembrete inconveniente dessa verdade. Dinheiro não pergunta em quem você vota antes de abrir portas.
Quando alguém passa a impressão de estar comprando influência em Brasília, não está revelando uma falha da esquerda ou da direita. Está revelando algo muito mais antigo e muito mais brasileiro: a crença de que algumas pessoas acham que tudo tem preço. Inclusive aquilo que jamais deveria estar à venda.