
Estive em João Pessoa participando do 24º Congresso Internacional de Direito Constitucional, promovido pela Escola Brasileira de Estudos Constitucionais (EBEC), sob a coordenação do professor Jorge Salomão.
Tive a honra de dividir a programação com grandes nomes do Direito brasileiro. A palestra que antecedeu a minha foi proferida pelo professor José Eduardo Cardozo, advogado, professor, ex-ministro da Justiça e uma das figuras mais conhecidas e respeitadas do cenário jurídico nacional.
Durante sua exposição, ele fez referência a um episódio histórico que considero oportuno compartilhar com meus amigos, eleitores e alunos.
Em 12 de outubro de 1936, em plena Guerra Civil Espanhola, a Universidade de Salamanca sediava uma cerimônia oficial. O ambiente estava carregado pela polarização e pela violência que já tomavam conta do país.
Entre os presentes estava o filósofo e reitor Miguel de Unamuno. Também participavam militares e líderes ligados ao movimento nacionalista liderado por Francisco Franco.
Durante os discursos, surgiram palavras de ordem que exaltavam a guerra e a eliminação dos adversários. Uma das mais conhecidas era ”¡Viva la Muerte!” (“Viva a Morte!”), lema associado à Legião Espanhola e ao general José Millán-Astray. Em determinado momento, também foram ouvidos ataques a intelectuais e opositores políticos.
Unamuno ficou profundamente incomodado. Para ele, uma civilização não poderia ser construída sobre o culto à morte nem sobre a destruição daqueles que pensavam diferente. Segundo os relatos mais conhecidos, respondeu que aquele local era um templo da inteligência e que estava sendo profanado.
Então fez a observação que se tornaria histórica. Dirigindo-se aos defensores da violência política, afirmou que eles poderiam vencer a guerra pela força das armas, mas não conquistariam os corações e as mentes das pessoas:
Vencerão, mas não convencerão.
A frase era uma resposta direta à ideia de que bastava eliminar, silenciar ou esmagar os adversários para resolver os conflitos políticos. Unamuno argumentava que a força pode impor obediência, mas não produz convicção genuína. É possível derrotar um oponente; mais difícil é persuadi-lo.
Miguel de Unamuno teve que sair escoltado da Universidade, queriam linchá-lo por causa do discurso. Foi destituído do cargo de reitor e, poucas semanas depois, morreu.
O episódio transformou-se em um símbolo da defesa da liberdade intelectual contra o fanatismo. Independentemente das discussões históricas sobre as palavras exatas pronunciadas naquele dia, a mensagem central permanece atual: uma sociedade que celebra o silenciamento dos adversários corre o risco de vencer batalhas momentâneas, mas perder a capacidade de convencer, dialogar e construir legitimidade.
Talvez seja uma reflexão útil para os tempos que estamos vivendo. Afinal, a democracia depende não apenas do direito de falar, mas também da disposição de ouvir, argumentar e convencer. A força pode impor o silêncio. A razão, porém, continua sendo o melhor caminho para conquistar consciências.