
Como funciona a tradição de benzer animais que resiste e se moderniza no interior do RS
No interior do Rio Grande do Sul, a tradição de benzer animais se mantém viva e ganha contornos modernos. Com orações e rituais baseados na fé, em Santo Antônio da Patrulha e Soledade moradores buscam a cura para cavalos e vacas doentes.
A prática, que antes exigia a presença física, agora conta até com pedidos feitos por mensagens de celular. O benzedor Ronaldo Diniz Pereira, morador de Santo Antônio da Patrulha, afirma que adquiriu o dom há dez anos, por acaso.
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“Eu fui lá no morro ver o gado. Cheguei lá, tinha uma vaca ‘bichada’. Eu disse ‘vamos benzer essa vaca’. Fiz uma oração, benzi, deu certo. E agora desse tempo para cá, todo mundo me pede, eu faço”, conta.
Para Ronaldo, o segredo do ritual é a crença mútua.
“Todo mundo tem que ter fé, senão não funciona, né? Cada um tem uma crença em alguma coisa”, afirma.
Com o uso da tecnologia, Ronaldo passou a benzer a distância. Ele recebe fotos dos animais e os pedidos pelo celular.
O fornecedor de gado para rodeios Lauri é um dos que buscam o auxílio. Em uma mensagem de áudio, ele pede ajuda para uma vaca. Lauri garante a eficácia do método utilizado pelo benzedor.
“Ele tem um dom de Deus que benzeu e em poucos dias tava curada. Tem que ter fé, a pessoa tem que acreditar em Deus”, diz.
O produtor rural José Ricardo Lima também relata a cura de um animal a distância.
“Ah, eu não conseguia pegar uma ‘potranca’, duas semanas já ‘bichada’. Um amigo meu disse ‘benze que te garanto’, aí liguei pro rapaz e ele disse: ‘manda uma foto ou um nome’. Mandei a foto, ele disse ‘não precisa mais olhar ela’. Fiquei duas semanas, fiquei na dúvida, na terceira semana fui lá, no campo, cheguei de longe, a potranca não teve nada. Já tinha fé, fiquei com muito mais”, relembra.
Ainda em Santo Antônio da Patrulha, a benzedeira Arinda Rocha de Souza utiliza uma folha e uma faca em seus rituais. A faca simboliza um pedido de socorro que corta a folha, como quem elimina uma doença.
“A folhinha é a maneira que eu faço para benzer. Eu pego e digo ‘nome do pai, do filho e do Espírito Santo”‘, explica.
Para Arinda, evocar os santos encurta o caminho da recuperação dos animais.
“Eu acho que o Santo Expedito é o meu protetor. Eu tenho de ter proteção de algum santo, porque eu não sou nada sem eles. São Sebastião é um santo muito guerreiro, eu acredito muito nele. E se eu peço para ele, ele está protegendo aquilo que eu estou pedindo”, afirma a benzedeira.
A escritora Elma Sant’ana, autora de um livro sobre o tema, explica que a tradição surgiu para reforçar o vínculo no campo.
“Então, a benzedeira ou o benzedor, no caso, quando ela rezava, ela não via uma hierarquia nessa posição entre animal e ser humano. Ela via uma desarmonia. Então, ela tentava restaurar esse equilíbrio que existia entre o ser humano e os animais, porque dependia um do outro”, detalha.
Em Soledade, a benzedeira Jurema, de 77 anos, vai de barraca em barraca oferecendo ajuda durante eventos. O laçador José Pedrassani recorreu a ela após um acidente com seu cavalo.
Durante o ritual, que dura cerca de um minuto, Jurema faz suas preces.
“Espírito, eu, em nome de Jesus, tiro todos os ciúmes, as invejas, ‘mau-olhado’, olho grande que botaram em você, e Deus manda pra longe, e que tu trate de melhorar bem, e que sare”, diz a benzedeira, que afirma ter aprendido a prática sozinha: “Eu aprendi com os poderes de Deus”.
Jurema recorda um caso marcante em que benzeu uma égua que sofria de cólicas. Ela detalha o desfecho rápido da situação.
“Não levou 30 minutos, o guri chegou lá na maior alegria assim ‘dona Jurema, a égua levantou, tá pastando’”, relembra a benzedeira.
Como funciona a tradição de benzer animais que resiste e se moderniza no interior do RS
Reprodução/RBS TV
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