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De “A Órfã” à vida real

De “A Órfã” à vida real
De “A Órfã” à vida real
Falsa adolescente e filme A Órfã (Imagem ilustrativa) Foto: IAChat GPT

Durante anos, o filme A Órfã foi considerado apenas um suspense psicológico. A história parecia absurda demais para ser levada a sério: uma mulher adulta que se passava por criança, enganava adultos, manipulava ambientes e se infiltrava em espaços destinados à infância.

Era apenas ficção. Ou pelo menos pensávamos que fosse.

Nos últimos dias, o mundo voltou sua atenção para o caso de uma mulher de 38 anos que afirma identificar-se como uma menina de 12 anos. O caso provocou perplexidade, debates e questionamentos. Mas talvez a questão mais preocupante não seja a condição dessa mulher. A questão mais preocupante é a reação da sociedade.

Vivemos um momento histórico em que fazer perguntas parece ter se tornado mais perigoso do que aceitar qualquer resposta.

Como psicóloga, a primeira pergunta que me ocorre não é política. É clínica. O que leva um adulto a rejeitar sua idade biológica e construir uma identidade infantil?

Essa pergunta não é ofensiva. Ela é necessária. A psicologia existe justamente para investigar fenômenos humanos complexos, compreender sofrimentos psíquicos, identificar mecanismos de defesa e analisar comportamentos que fogem ao desenvolvimento esperado.

Entretanto, parece que estamos entrando em uma era em que a investigação é vista como agressão e o questionamento é confundido com intolerância.

Acolher alguém não significa abandonar a análise crítica. Pelo contrário. Quanto mais incomum o fenômeno, maior deveria ser nosso interesse em compreendê-lo.

O problema é que o caso ultrapassa a esfera individual. Ele nos obriga a discutir uma questão cultural muito maior.

Nas últimas décadas, determinadas correntes ideológicas passaram a defender que a identidade subjetiva deve ocupar posição superior à realidade objetiva. A experiência interna passou a ser considerada, por muitos, mais importante do que critérios biológicos, históricos ou observáveis.

Não estamos mais discutindo apenas como uma pessoa se sente. Estamos discutindo se a percepção individual pode redefinir categorias fundamentais da realidade. E é aqui que surgem perguntas difíceis.

Se uma pessoa biologicamente adulta pode ser socialmente reconhecida como criança, quais são os limites? Quem define esses limites? Quais critérios permanecem objetivos?

A infância não é apenas uma percepção. A infância é uma fase do desenvolvimento humano reconhecida pela biologia, pela psicologia, pelo direito e pela neurociência.

Crianças possuem proteção especial porque possuem vulnerabilidades especiais. Por essa razão, qualquer situação que envolva adultos ocupando espaços, papéis ou identidades associadas à infância deveria despertar prudência, não celebração automática.

Isso significa que essa mulher representa algum risco? Não necessariamente. Não existe evidência pública que autorize tal conclusão. Mas essa também não é a pergunta central. A pergunta correta é outra: uma sociedade responsável deve abandonar seus mecanismos de avaliação e proteção apenas porque alguém reivindica determinada identidade?

A criminologia ensina que indivíduos manipuladores raramente se apresentam como ameaça. Predadores costumam explorar justamente aquilo que existe de melhor em nós: empatia, compaixão, desejo de inclusão e confiança. Foi assim em inúmeros casos de abuso infantil, exploração emocional e manipulação psicológica ao longo da história.

Não porque toda pessoa diferente seja perigosa. Mas porque pessoas perigosas frequentemente aprendem a utilizar discursos emocionalmente poderosos para desarmar questionamentos.

O grande problema do nosso tempo é que o medo de parecer preconceituoso está começando a superar o dever de proteger os vulneráveis. E quando isso acontece, a sociedade perde uma de suas funções mais importantes: o discernimento.

Talvez por isso o filme A Órfã continue tão perturbador. Não por causa do terror. Mas porque ele nos lembra de uma verdade desconfortável: aparência não é realidade. Narrativa não é realidade. Autopercepção não é necessariamente realidade.

A função de uma sociedade madura não é ridicularizar quem pensa diferente. Também não é aceitar qualquer afirmação sem questionamento. A verdadeira maturidade está em conseguir acolher sem abandonar a verdade, incluir sem abandonar a prudência e respeitar sem abrir mão do senso crítico. Porque quando uma cultura perde a coragem de fazer perguntas óbvias, ela não se torna mais humana. Ela apenas se torna mais vulnerável.

E toda vez que a proteção das crianças deixa de ser prioridade absoluta, estamos diante de um alerta que não pode ser ignorado.